sábado, 7 de fevereiro de 2009

“O inssino no Brasiu è otimo”

“O inssino no Brasiu è otimo”

Esther Pillar Grossi

Não é só no Brasil que o ensino está péssimo. Este, infelizmente, é um problema internacional. O fato de que em várias avaliações haja mais de 50 países com resultados superiores aos brasileiros não quer dizer que os outros estejam bem. Na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos... numerosas pesquisas revelam carências graves, principalmente, nas aprendizagens da língua materna e da matemática, que são alicerces para a construção de qualquer conhecimento.

Não temos a quem imitar ou ao menos em quem nos inspirar para que melhoremos nossos resultados escolares. Temos, sim, que nos incorporar às vanguardas científicas que estão descobrindo algo muito novo neste campo.

Este algo muito novo começa com a constatação alvissareira de que “todos podem aprender”. De que a inteligência não é um dom, mas de que ela, em verdade, é um processo, ficando-se inteligente provocado por oportunidades de formular problemas.

Isto implica numa mudança completa no jeito de ensinar. Não se ensina explicando, se ensina instigando os alunos com desafios para que eles se façam perguntas. Só se aprende se há alguma falta a preencher. A competência para produzir esta falta tornou-se a base da ação docente, à luz de sólidas construções científicas em didática e em psicologia da inteligência.

Esta competência, por sua vez, supõe mais do que o domínio da matéria a ensinar. Supõe o domínio de um campo original dos saberes, que é a trajetória sui generis que percorremos até atingir um conjunto de conceitos, chamada psicogênese.

Psicogênese é um campo novo no âmbito do ensino, assim como há campos novos em engenharia, em administração, em comunicação, na diplomacia, etc.

A psicogênese dá conta de que, para aprender, não se vai direto aos conhecimentos que já foram elaborados e que estão sistematizados nos livros. A gente constrói hipóteses engenhosas, porém equivocadas, no trânsito rumo aos saberes. Só conhecendo essas hipóteses é que o professor pode fazer com que os alunos passem pela constatação de suas incompletudes e abram espaço para novas aprendizagens.

Mas, psicogênese é um ramo científico relativamente recente. A psicogênese da leitura e da escrita foi explicitada nos idos de 1980. Em matemática, estão disponíveis psicogêneses em vários conteúdos como as estruturas dos números, as estruturas aditivas e multiplicativas, a proporcionalidade, as medidas e algo em geometria. E elas requerem hoje, esforços tanto para que sejam apropriadas pelo que os pesquisadores já disponibilizaram, assim como para que estes, disponibilizem mais e mais.

Além da psicogênese, há também a compreensão de que aprender é um fenômeno social e de que se aprende visceralmente em trocas com os outros. Os outros estão em três categorias: os que sabem mais do que aquele que aprende, os que sabem o mesmo e os que sabem menos do que cada aluno.

Os professores são aqueles que devem saber mais do que os alunos. Mas, conforme afirmou o próprio Piaget, há momentos em que um bom professor presta um mau serviço a eles. São os momentos em que um parceiro igual em termos de conhecimentos, ajuda mais que um professor, pois a autoridade deste atua como um bloqueio à aceitação de que está equivocado e de que necessita humildemente aceitar este equívoco.

Estas considerações conduzem obrigatoriamente a uma mudança na estrutura de sala de aula. Aluno um atrás do outro, ouvindo professores e copiando do quadro é um panorama obsoleto da escola, que aliás é ainda tão encontradiço.

Muitos ainda não se deram conta do quanto deve e pode mudar a escola e se dizem satisfeitos com a que aí está. Mas, não são todos. No Rio Grande do Sul, nós do Geempa podemos testemunhar que 400 professores de 20 municípios estão empenhados em transformar seu modo de ensinar, dentro do Projeto da SEC ‘Para alfabetizar alunos com 6 anos’.

Além disso, mais municípios, por conta própria, demandam assessoria para que revejam seus velhos hábitos pedagógicos e instaurem uma didática atualizada, digna do 3º milênio e, à altura de ensinar a todos, como tem direito cada aluno.

É preciso incluir nesta instauração os núcleos do Geempa em Brasília, no Rio de Janeiro, no Ceará, em Goiás e no Paraná.

E mais, o Colégio Israelita Brasileiro, solicitou orientação para uma reformulação de seu currículo na área de matemática, desde a escola infantil até o 3º ano do ensino médio, o que estamos assessorando para que ocorra em 2009.

Assim, pode se constatar que já há bons indícios de tomada de consciência de que “o inssino no Brasiu” não está ótimo e de que há recursos científicos para melhorá-lo.

Finalmente, impõe-se agregar a Colômbia que por intermédio do seu Ministério de Educação, pede um grupo de pesquisa brasileiro, que ajude a descumprir com a profecia de fracasso que pesa injustamente sobre as cabeças de tantos alunos, os quais em verdade, tem tudo para aceder ao poder dos saberes e às alegrias do aprender.

Um comentário:

Kátia Freitas disse...

Acredito em uma educação pública de qualidade.
Tenho consciência das dificuldades que, nós educadores, estamos vivenciando...Mas sei também que queremos o melhor para as nossas crianças, afinal esse é o nosso dever enquanto EDUCADORES.